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A nossa necessidade de partilha é impossível de satisfazer?

  • IKIGAI - Equilíbrio Digital
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

“...Há uma coisa de que estou firmemente convicto: a necessidade humana de consolo é impossível de satisfazer”— Stig Dagerman

 

“No nosso mundo de furiosa «individualização», os relacionamentos são bênçãos ambíguas. Oscilam entre o sonho e o pesadelo, e não há como determinar quando um se transforma no outro” – Zygmunt Bauman

 

Nos dias que correm confrontamo-nos, cada vez, mais, com um paradoxo: nunca foi tão fácil partilhar (ideias, emoções, fotografias, opiniões, etc.) mas é cada vez mais comum a sensação de “faltar algo” – resposta, presença, continuidade ou significado.

A frase “a nossa necessidade de partilha é impossível de satisfazer” é provocatória. Não com o intuito de condenar o mundo digital, mas para indicar a existência de um desalinhamento: muitas vezes, aquilo que precisamos quando estamos a partilhar algo é vínculo, e aquilo que o ecossistema digital nos devolve é fluxo (visibilidade intermitente, emojis, métricas, dispersão de atenção). Partilhar não é vaidade: é pertença e construção de sentido.

A literatura em psicologia social aponta a necessidade de pertença como uma motivação humana fundamental: procuramos relações estáveis, interações frequentes e laços que sustentem reconhecimento e inclusão (Baumeister & Leary, 1995).

É comum, após acontecimentos emocionalmente relevantes, sentirmos o impulso para contar a alguém. A investigação sobre partilha social das emoções mostra que este movimento cumpre funções importantes: regular a experiência emocional, procurar validação, reforçar laços e construir sentido em conjunto (Rimé, 2007).

Isto é, a necessidade por trás da partilha não se resume a “mais conteúdo”, mas a “mais ligação”.

Tudo se altera quando “partilhar” passa a significar “publicar”. No mundo offline, partilhar tende a ser um acto com destinatário: falamos com alguém, num contexto reconhecível, com tempo e possibilidade de resposta.

No mundo online, uma grande parte da partilha transforma-se em publicação (conteúdo): fala-se para uma audiência ampla, muitas vezes invisível, com múltiplos públicos ao mesmo tempo. Estamos perante um fenómeno descrito como “colapso de contextos e audiência imaginada”: diferentes grupos (família, colegas, amigos e desconhecidos) convergem no mesmo espaço, dificultando a utilização online das mesmas técnicas de comunicação que funcionam no frente a frente (Marwick & Boyd, 2021).

Esta transformação tem consequências práticas:

- Mais gestão de imagem (o que dizer, como dizer, para quem);

- Maior risco de mal-entendidos (porque o contexto é instável);

- Respostas mais curtas e mais rápidas, nem sempre compatíveis com o que a partilha realmente pede (escuta, tempo, continuidade).

Ou seja: circula mais informação, mas há menos encontro.


Porque é que a partilha “não sacia” (mesmo quando há reação)? O problema não é o excesso de partilha mas antes:

1.       Atenção fragmentada: Quando a resposta vem em sinais mínimos (likes, visualizações) ou em silêncio, a experiência pode ser interpretada como ausência de acolhimento, mesmo que tecnicamente tenha havido alcance;

2.       Reciprocidade imprevisível: A partilha humana tende a pedir reciprocidade, ser escutado, ser respondido, ser reconhecido. Em muitos ambientes digitais, a reciprocidade é desigual e intermitente;

3.       Conexões fáceis, vínculos frágeis: A reflexão sociológica de Zygmunt Bauman ajuda a ler esta tensão: num contexto de individualização intensa, os laços tendem a tornar-se mais ambíguos e instáveis (Bauman, 2013).

Todos estes fatores criam um ciclo que nos é familiar: partilho – não sinto resposta suficiente – partilho outra vez – continuo com a sensação de insuficiência.

A necessidade de partilhar não é errada, o meio é que nem sempre é o mais adequado à resposta que procuramos.


O que propomos no âmbito do equilíbrio digital:

1.       Endereçar em vez de difundir: se o que está em causa é vulnerabilidade, dúvida, decisão, pedido de ajuda: escolher o destinatário (uma pessoa, um pequeno grupo) – tende a produzir mais cuidado do que “lançar ao feed”;

2.       Reciprocidade em vez de métricas: trocar indicadores (quantidade) por práticas (qualidade) – perguntar, escutar, retomar o tema mais tarde, dar continuidade;

3.       Ritmo em vez de urgência: criar pausas antes de publicar, reservar momentos para conversas sem pressas, preferir rituais de ligação (semanais, quinzenais) a impulsos contínuos.


Referências

  • Baumeister, R. F., & Leary, M. R. (1995). The need to belong: Desire for interpersonal attachments as a fundamental human motivation. Psychological Bulletin, 117(3), 497–529.

  • Bauman, Z. (2013). Amor líquido: Sobre a fragilidade dos laços humanos (C. A. Medeiros, Trad.). Relógio d’Água. (Obra original publicada em 2003)

  • Dagerman, S. (2025). A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer (J. Reis, Trad.). Relógio d’Água.

  • Marwick, A. E., & boyd, d. (2011). I tweet honestly, I tweet passionately: Twitter users, context collapse, and the imagined audience. New Media & Society, 13(1), 114–133. https://doi.org/10.1177/1461444810365313

  • Rimé, B. (2007). The social sharing of emotion as an interface between individual and collective processes in the construction of emotional climates. Journal of Social Issues, 63(2), 307–322. https://doi.org/10.1111/j.1540-4560.2007.00510.x

 
 
 

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