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“Espelho meu, espelho meu…” – Cada um tem o algoritmo que é.

  • IKIGAI - Equilíbrio Digital
  • 16 de jan.
  • 3 min de leitura

Na história da Branca de Neve, a Rainha Má tem um ritual recorrente: aproxima-se do espelho e faz sempre a mesma pergunta – “Espelho meu, espelho meu, há alguém mais bela do que eu?”

O que rainha procura não é informação, é confirmação. Nada de novo no reino da Rainha Má enquanto o espelho repete o que ela quer ouvir. Quando o espelho a contraria – com a sugestão da beleza superlativa da Branca de Neve – a realidade torna-se intolerável.

Nos dias que correm, o espelho assumiu um novo formato. Deixou de ser um objeto mágico pendurado na parede e tornou-se num objeto mágico que carregamos connosco em todas as horas que fazem um dia. O espelho tornou-se múltiplo e omnipresente, na forma de feeds, recomendações, notificações e assistentes virtuais.

Enquanto no conto de fadas o espelho tinha um compromisso com a verdade, não obstante as fantasias da rainha; o espelho digital tem um compromisso apenas com a captação e retenção de atenção.

O espelho digital da rainha funciona como uma caixa de ressonância – a proverbial bolha – que amplifica e retribui tudo o que lhe é alimentado. Entram cliques, comentários, pesquisas e saem indignações, validações e informações monotemáticas.  Com o tempo dá-se a homogeneização da experiência, isto é, menos surpresas, menos diversidade, mais repetição.  Um processo também conhecido como feedback loop: o sistema faz recomendações que consumimos, este consumo transforma-se em dados que reforçam o sistema que nos devolve mais recomendações.

A relação da rainha com o espelho pendurado na parede também era de feedback loop: pergunta – resposta - gratificação – repetição. A relação com o seu novo espelho digital, no entanto, é muito mais potente porque é contínua, automática e sempre disponível.

Com os Large Language Models (LLM): Chatgpt, Copilot, Gemini e quejandos, o espelho deixa de ser apenas um feed e torna-se um interlocutor. Isto faz com que haja uma exacerbação no poder do reforço uma vez que deixa de haver apenas exposição e passa a haver uma conversa. Uma conversa que produz a sensação de se ser compreendido. É aqui entra em cena o conceito de sycophancy, ou servilismo cognitivo, que é como quem diz bajulação digital.

Os LLM, ao contrário do espelho analógico da rainha, têm tendência para alinhar com as crenças do utilizador e produzir respostas que confirmam essas mesmas crenças, mesmo que no processo se sacrifique a verdade. Em trabalhos recentes foi demonstrado como os assistentes virtuais podem favorecer as respostas agradáveis em detrimento das respostas corretas. Este é o espelho ideal para a nossa Rainha: um espelho que tranquiliza e nunca devolve brancas de neve. Dito de outra forma, o problema das LLM é usá-las apenas como forma de confirmação. É reduzir a fricção e eliminar o contraditório.


Algumas dicas práticas sobre como usar o espelho sem viver dentro dele

- Garantir a exposição regular a fontes e argumentos diferentes;

- No uso de LLM usar comandos (prompts) para que se apresentem argumentos a favor e contra uma dada proposição, parecer, opinião, etc.;

- Avaliar a disposição após o uso destas ferramentas: estamos mais curiosos e capaz de escolher ou mais reativos e fechados em nós mesmos? – Se o resultado for um afunilamento das nossas crenças isto poder ser um sinal de ressonância excessiva.


Feitas as contas o que diferencia a Rainha de alguém com autonomia é a forma como se usa o espelho: para esclarecimento e clarificação ou para evitar o desconforto de crescer?


Referências

FLAXMAN, S.; GOEL, S.; RAO, J. M. (2016). Filter Bubbles, Echo Chambers, and Online News Consumption.

 

BAKSHY, E.; MESSING, S.; ADAMIC, L. A. (2015). Exposure to ideologically diverse news and opinion on Facebook.

 

CINELLI, M. et al. (2021). The echo chamber effect on social media. PNAS.

 

MESSING, S.; WESTWOOD, S. J. (2014). Selective Exposure in the Age of Social Media: Endorsements Trump Partisan Source Affiliation When Selecting News Online.

 

MANSOURY, M. et al. (2020). Feedback Loop and Bias Amplification in Recommender Systems.

 

SINHA, A.; GLEICH, D. F.; RAMANI, K. (2017). Deconvolving Feedback Loops in Recommender Systems.

 

ZUIDERVEEN BORGESIUS, F. J. et al. (2016). Should we worry about filter bubbles?

 

DAHLGREN, P. M. (2021). A critical review of filter bubbles and a comparison with selective exposure.

(Nota: o PDF pode estar condicionado por acesso institucional nesta plataforma.)

 

OUYANG, L. et al. (2022). Training language models to follow instructions with human feedback.

 

CHRISTIANO, P. F. et al. (2017). Deep Reinforcement Learning from Human Preferences.

PDF (NeurIPS):

 

SHARMA, M. et al. (2024). Towards Understanding Sycophancy in Language Models. ICLR 2024.

 
 
 

1 comentário


Serg Zorg
Serg Zorg
30 de jan.

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