Quando o corpo deixa de brincar: impacto dos ecrãs no movimento e no desenvolvimento psicomotor
- IKIGAI - Equilíbrio Digital
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Introdução
Nas últimas duas décadas, a utilização de dispositivos digitais por crianças e adolescentes aumentou de forma exponencial. O tempo de ecrã inclui televisão, smartphones, tablets, computadores e videojogos, constituindo atualmente uma das principais atividades sedentárias durante a infância e adolescência (Stiglic & Viner, 2019).
Embora a tecnologia ofereça oportunidades educativas, sociais e recreativas relevantes, a evidência científica demonstra que a exposição excessiva a ecrãs está associada a múltiplas consequências no desenvolvimento infantil e juvenil (WHO, 2019). Do ponto de vista psicomotor, esta realidade levanta uma preocupação central: a redução significativa das experiências corporais e motoras essenciais ao crescimento saudável.
Movimento e desenvolvimento psicomotor desde a infância até à adolescência
O desenvolvimento motor não termina na infância, prolongando-se ao longo da adolescência, período marcado por profundas alterações físicas, hormonais e neuromusculares. O movimento desempenha um papel estruturante na organização neurológica, na construção do esquema corporal e na regulação emocional (Adolph & Hoch, 2019).
A redução da atividade física e o aumento do comportamento sedentário — particularmente o tempo de ecrã — têm sido associados a atrasos no desenvolvimento motor, níveis mais baixos de aptidão física e menor participação em atividades físicas durante a adolescência (Carson et al., 2016). Assim, o sedentarismo digital constitui um fator de risco para o desenvolvimento psicomotor desde a infância até à juventude.
Redução da aptidão física e força muscular
A evidência consistente demonstra que níveis elevados de sedentarismo estão associados a menor aptidão cardiorrespiratória, menor força muscular e menor resistência física (Saunders et al., 2016).
Crianças e adolescentes com maior tempo de ecrã apresentam:
menor participação em atividade física;
maior fadiga durante esforço;
menor desempenho motor e desportivo.
Na adolescência, esta redução da aptidão física pode interferir com a prática desportiva, a autoestima corporal e a manutenção de hábitos saudáveis na vida adulta (Saunders et al., 2016).
Impacto na coordenação motora e competências motoras
A aquisição e consolidação de competências motoras dependem de experiências corporais diversificadas e repetidas ao longo da infância e adolescência. A substituição da brincadeira ativa e da prática desportiva por atividades sedentárias limita oportunidades essenciais de exploração motora (Logan et al., 2018).
Um maior tempo de ecrã está associado a níveis mais baixos de:
coordenação e competências de motricidade global, que permitem organizar e sincronizar movimentos do corpo e constituem a base de todas as atividades físicas e recreativas, incluindo movimentos locomotores (correr, saltar ou trepar), controlo de objetos (lançar, apanhar ou chutar uma bola) e competências de estabilidade (manter a postura, rodar ou mudar de direção);
equilíbrio, essencial para a estabilidade postural e segurança nas atividades do dia a dia;
destreza manual, importante para tarefas como escrever, desenhar, manipular objetos ou praticar desporto.
Quando estas capacidades não são suficientemente estimuladas, a criança ou jovem tende a evitar atividades físicas, o que pode reduzir a confiança corporal e a participação em brincadeiras e desporto. Estas competências são preditores importantes da participação futura em atividade física, da saúde global e do bem-estar ao longo da vida.
Implicações psicomotoras ao longo da infância e juventude
A psicomotricidade considera o corpo como base de todas as aprendizagens. O movimento é essencial para:
organização sensorial, que permite ao cérebro integrar e interpretar informações provenientes dos sentidos (tátil, vestibular, propriocetivo), fundamentais para a atenção, o comportamento e a adaptação ao ambiente;
desenvolvimento do esquema corporal, isto é, a construção da perceção do próprio corpo, das suas partes e das suas possibilidades de ação, essencial para a coordenação, a orientação no espaço e a confiança corporal;
regulação emocional, uma vez que o movimento contribui para a descarga de tensão, para a autorregulação fisiológica e para a gestão de emoções como frustração, ansiedade ou agitação;
construção da autonomia, permitindo à criança e ao jovem desenvolver competências funcionais para o dia a dia, como vestir-se, organizar materiais, explorar o ambiente e participar ativamente nas rotinas.
A redução da atividade motora pode comprometer múltiplas dimensões do desenvolvimento desde a infância até à adolescência, com impacto potencial no bem-estar físico e funcional ao longo do ciclo de vida (Adolph & Hoch, 2019; Carson et al., 2016).
Promover equilíbrio digital através do movimento
A evidência científica não sugere a eliminação dos ecrãs, mas sim a necessidade de equilíbrio entre comportamento sedentário e atividade física (World Health Organization, 2019).
As recomendações internacionais enfatizam:
limitação do tempo de ecrã recreativo;
promoção de brincadeira ativa e prática desportiva;
aumento do tempo ao ar livre.
Pequenas mudanças comportamentais podem produzir benefícios significativos na saúde e no desenvolvimento psicomotor.
Conclusão
O movimento é uma necessidade biológica e não apenas uma opção recreativa. O uso excessivo de ecrãs pode limitar experiências corporais essenciais ao crescimento, à autonomia e à construção da relação com o próprio corpo. Promover o equilíbrio digital significa devolver protagonismo ao brincar, ao explorar e ao mover — pilares fundamentais do desenvolvimento ao longo da infância e juventude.
Referências
Adolph, K. E., & Hoch, J. E. (2019). Motor development: Embodied, embedded, enculturated, and enabling. Annual Review of Psychology, 70, 141–164. https://doi.org/10.1146/annurev-psych-010418-102836
Carson, V., et al. (2016). Systematic review of sedentary behaviour and health indicators in school-aged children and youth. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 41(6), S240–S265. https://doi.org/10.1139/apnm-2015-0630
Logan, S. W., et al. (2018). Relationship between fundamental motor skill competence and physical activity. Sports Medicine, 45(9), 1273–1284. https://doi.org/10.1007/s40279-015-0358-6
Saunders, T. J., et al. (2016). Sedentary behaviour and health in children. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 41(6), S197–S239. https://doi.org/10.1139/apnm-2015-0630
World Health Organization. (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age.
Stiglic, N., & Viner, R. (2019). Effects of screentime on health and well-being. BMJ Open, 9(1), e023191.



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