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As mudanças nos desenhos animados: sobrestimulação e impacto no desenvolvimento infantil

  • IKIGAI - Equilíbrio Digital
  • 23 de jan.
  • 3 min de leitura

Nas últimas décadas, os desenhos animados sofreram uma mudança significativa no ritmo e na estimulação sensorial. Há 20/30 anos, a maioria das animações infantis apresentava planos longos, narrativas simples, poucos estímulos sonoros simultâneos e ritmo mais previsível. Exemplos clássicos tinham histórias lineares, pausas naturais e maior foco no diálogo e na imaginação da criança.


Atualmente, muitos conteúdos infantis e sobretudo os produzidos para plataformas digitais, recorrem a:

  • Cortes muito rápidos (mudanças de imagem a cada 1–3 segundos);

  • Sons constantes, músicas intensas e efeitos sonoros sobrepostos;

  • Cores muito saturadas e movimento permanente;

  • Estímulos desenhados para reter atenção, não necessariamente para ensinar.


A evidência científica sugere que este excesso de estimulação pode:

  • Causar prejuízos ao nível do desenvolvimento da atenção sustentada;

  • Promover o aumento agitação e irritabilidade;

  • Tornar atividades do dia a dia (brincar, ouvir histórias, estar em silêncio) menos atrativas, especialmente em crianças pequenas, cujo cérebro ainda está em maturação.


Por isso, não é apenas o “tempo de ecrã” que importa, mas sobretudo o tipo de conteúdo e a forma como é consumido. Neste sentido, sugerimos também boas práticas que poderemos aplicar às nossas crianças:

✔️ Priorizar qualidade em vez de quantidade;

✔️ Escolher conteúdos com ritmo calmo, narrativa clara e valores positivos;

✔️ Evitar vídeos muito rápidos, caóticos ou sem história;

✔️ Sempre que possível, ver com a criança e conversar sobre o que está a ver;

✔️ Nunca usar ecrãs como principal recurso para acalmar a criança;

✔️ Garantir tempo diário suficiente para brincar livremente, ler e interagir;

✔️ Evitar ecrãs antes de dormir, para proteger o sono.


Recomendações por faixa etária:


  • Entre os 0 e 3 anos, recomenda-se evitar os ecrãs sempre que possível, uma vez que nesta idade, o cérebro aprende sobretudo através de: interação humana, movimento, linguagem direta e exploração do mundo real. Os ecrãs não substituem estas experiências.

O que é adequado nesta etapa: Atuando como exceções (curtas e esporádicas), são recomendados vídeos muito lentos, simples e curtos, e sempre com um adulto presente.

Exemplos mais adequados (uso excecional): Pocoyo e Canções simples infantis (sem estímulo visual excessivo).

Conselhos práticos: Priorizar histórias contadas, música ao vivo, brincar no chão; evitar telemóveis e tablets como “chupeta digital”.


  • Entre os 4 e os 6 anos, o tempo de ecrã recomendado é de, no máximo, 1 hora por dia, com supervisão,

O que é adequado nesta etapa: São recomendados vídeos/episódios de ritmo calmo, histórias compreensíveis, promoção de emoções, empatia e curiosidade; e pouca violência ou conflitos simples e bem resolvidos.

Exemplos adequados: Bluey, Daniel Tiger’s Neighborhood, O Show da Luna!, Meu AmigãoZão, Doutora Brinquedos.

Conselhos práticos: Ver juntos e comentar (“O que sentiste?”, “O que aprendeste?”); evitar autoplay contínuo; alternar com desenho, jogos simbólicos e leitura.


  • Entre os 7 e os 10 anos, o tempo de ecrã recomendado é de, no máximo, 2 horas por dia (não consecutivas).

O que é adequado nesta etapa: São recomendadas narrativas mais complexas, conteúdos educativos ou de aventura com valores claros e estímulo ao pensamento crítico e resolução de problemas. Devemos evitar desenhos com violência gratuita, humor agressivo constante, conteúdos demasiado acelerados.

Exemplos adequados: Ask the StoryBots, Sid the Science Kid, Super Why!, Avatar: The Last Airbender (com mediação adulta), Steven Universe (para crianças mais maduras emocionalmente).

Conselhos práticos: Definir regras claras de tempo e horários previamente estipulados; incentivar a criança a refletir sobre o que vê; manter o ecrã fora do quarto, sempre que possível. Podemos concluir então que os desenhos animados não são todos iguais. Quando são escolhidos com critério e usados com moderação, podem ser uma ferramenta positiva. Quando são excessivamente estimulantes, rápidos e consumidos sem limites, podem interferir no desenvolvimento infantil. O papel do adulto será sempre escolher, limitar e acompanhar, e este continua a ser o fator mais importante.


Referências

  • American Academy of Pediatrics (AAP). (2016). Council on Communications and Media. Media and Young Minds. Pediatrics. 138(5):e20162591. doi:10.1542/peds.2016-2591


  • World Health Organization (WHO). (2019). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. World Health Organization.


  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). (2019). Manual de Orientação – Uso saudável de telas, tecnologias e mídias na infância e adolescência. SBP.


  • Christakis D. A. et al. (2018). How early media exposure may affect cognitive function: A review of results from observations in humans and experiments in mice. Proceedings of the National Academy of Sciences. 115(40):9851–9858. doi:10.1073/pnas.1801309115


  • Radesky, J. S., Schumacher, J., & Zuckerman B. (2015). Mobile and interactive media use by young children: The good, the bad, and the unknown. Pediatrics.135(1):1–3. doi:10.1542/peds.2014-2251


  • Kostyrka-Allchorne, K., Cooper, N. R., & Simpson, A. (2017). The relationship between television exposure and children’s cognition and behaviour: A systematic review. Developmental Review. 44:19–58. doi:10.1016/j.dr.2016.12.002


  • Barr, R. (2019). Growing up in the digital age: Early learning and family media ecology. Current Directions in Psychological Science. 28(4):341–346. doi:10.1177/0963721419838245



 
 
 

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