Crianças, jovens e ecrãs: o papel dos pais faz a diferença
- IKIGAI - Equilíbrio Digital
- há 10 horas
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Complementarmente ao que tem sido descrito, importa aprofundar de forma sistematizada algumas dimensões práticas da mediação parental, integrando os principais eixos identificados na literatura e traduzindo-os em orientações aplicáveis ao contexto familiar.
Desde logo, sabe-se que as crianças tendem a replicar os hábitos digitais dos adultos significativos. O uso frequente de ecrãs pelos pais, sobretudo quando ocorre durante momentos de interação, como refeições, conversas ou brincadeira, pode reduzir a qualidade da presença relacional e interferir na responsividade emocional, fenómeno descrito na literatura como technoference (Toledo-Vargas et al., 2025).
Assim, não é apenas o tempo de ecrã que assume relevância clínica, mas sobretudo o contexto em que ocorre e a forma como é mediado. O comportamento digital dos adultos constitui uma referência concreta para o padrão de utilização que os filhos irão desenvolver (Cruz et al., 2020).
Este foi o tema abordado no último texto do Blog IKIGAI. Neste sentido, consideramos que, complementarmente ao que tem sido descrito, importa aprofundar de forma sistematizada algumas dimensões práticas da mediação parental, integrando os principais eixos identificados na literatura e traduzindo-os em orientações aplicáveis ao contexto familiar.
O que influencia uma relação saudável com as TIC?
É sabido que diversos fatores contribuem para uma relação equilibrada com as tecnologias:
Exemplo dos adultos enquanto modelos de autorregulação;
Regras claras e consistentes, ajustadas à idade e maturidade;
Diálogo e acompanhamento contínuo;
Co-uso consciente das tecnologias;
Clima emocional familiar estável e seguro.
A presença destes elementos associa-se a maior literacia digital, melhor autorregulação e menor probabilidade de uso desregulado (Nielsen et al., 2019).
Boas práticas parentais na gestão das TIC
Também já sabemos que a operacionalização da mediação parental pode traduzir-se em estratégias concretas. Por exemplo:
Definir limites ajustados à idade e revistos progressivamente;
Conversar regularmente sobre conteúdos digitais, jogos e interações online;
Garantir disponibilidade emocional e atenção plena nos momentos partilhados;
Promover equilíbrio entre atividades online e experiências offline.
Particularmente relevante é o papel dos pais como modelos digitais. Evitar o uso constante do telemóvel durante momentos de interação, demonstrar pausas intencionais no uso de ecrãs e verbalizar escolhas conscientes (por exemplo, “vou pousar o telemóvel para estarmos juntos”) são comportamentos que transmitem mensagens implícitas de prioridade relacional e autorregulação (Cruz et al., 2020).
Estabelecer limites claros e consistentes
A definição de regras transmite segurança e previsibilidade, os quais consistem em fatores protetores no desenvolvimento infantil. Recomenda-se:
Estabelecer horários e espaços livres de ecrãs (ex.: refeições, quarto durante a noite);
Ajustar limites à fase desenvolvimental;
Rever regras à medida que a criança cresce;
Assegurar coerência entre adultos de referência, evitando mensagens contraditórias.
A inconsistência entre cuidadores pode gerar confusão normativa e enfraquecer a internalização de regras, comprometendo a eficácia da mediação parental (Brito, 2018).
Privilegiar a mediação ativa
A mediação ativa envolve diálogo, reflexão crítica e acompanhamento próximo. De acordo com Chen et al. (2025), este estilo de mediação associa-se a menores níveis de uso problemático de smartphone na adolescência, enquanto estratégias exclusivamente centradas no controlo rígido podem comprometer a satisfação das necessidades psicológicas básicas e aumentar o risco de uso desregulado.
A mediação ativa implica:
Falar sobre o que a criança vê, joga ou partilha;
Ajudar a distinguir conteúdos fiáveis de desinformação;
Explorar emoções despertadas pelo uso das TIC;
Incentivar pensamento crítico e competências de autorregulação.
Este tipo de mediação promove autonomia progressiva, sem recorrer exclusivamente ao controlo externo (Chen et al., 2025).
Co-uso consciente das tecnologias
A utilização partilhada das TIC pode fortalecer o vínculo e potenciar benefícios educativos e sociais. Exemplos incluem:
Jogar videojogos adequados à idade em família;
Visualizar conteúdos educativos e comentá-los;
Explorar aplicações criativas ou pedagógicas em conjunto.
O co-uso permite contextualizar conteúdos, modelar comportamentos e transformar a experiência digital num espaço relacional, favorecendo o desenvolvimento de competências críticas (Nielsen et al., 2019).
Atenção ao uso emocional dos ecrãs
As tecnologias não devem assumir a função principal de regulação emocional. Quando o ecrã é utilizado sistematicamente para acalmar frustração, tristeza ou aborrecimento, pode comprometer o desenvolvimento de estratégias internas de autorregulação (Cruz et al., 2020).
Sinais de alerta incluem:
Uso excessivo e desregulado;
Irritabilidade quando o acesso é limitado;
Isolamento social progressivo;
Utilização dos ecrãs como forma de evitar emoções difíceis.
Nestes casos, torna-se fundamental explorar as necessidades emocionais subjacentes e fortalecer competências socioemocionais alternativas.
Cuidar do bem-estar parental
O bem-estar emocional dos pais influencia diretamente o clima familiar e, consequentemente, os hábitos digitais das crianças. Sobrecarga, stresse ou exaustão parental podem aumentar a probabilidade de recurso às TIC como estratégia de gestão comportamental, reforçando padrões de utilização disfuncionais (Toledo-Vargas et al., 2025).
Cuidar de si, estabelecer limites pessoais no uso de dispositivos e promover momentos de desconexão consciente são formas indiretas, mas poderosas, de promover o bem-estar digital dos filhos.
Em síntese, a construção de uma relação saudável com as TIC não depende exclusivamente da restrição do tempo de ecrã, mas de um conjunto integrado de práticas relacionais, educativas e regulatórias. Pais conscientes e emocionalmente disponíveis hoje contribuem para a formação de adultos digitalmente competentes, críticos e autorregulados amanhã.
Referências
Brito, R. (2018). Estilo parental e mediação do uso de tecnologias por crianças até 6 anos. Da Investigação às Práticas, 8(2), 21–46. https://doi.org/10.25757/invep.v8i2.155
Chen, Y., Gu, Q., Zheng, Q., Hu, B., Gu, C., Hu, Q., & Cao, Y. (2025). How parental mediation affects adolescents’ problematic smartphone use: The chain mediating role of basic psychological needs and positive outcome expectations. Frontiers in Psychology, 16. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2025.1590057
Cruz, C., Franco, C., Anunciação, F., & Cunha, M. J. (2020). A domesticação de ecrãs na infância: usos e mediação parental em meios citadino e rural. Comunicação e Sociedade, 37, 71–92. https://doi.org/10.17231/comsoc.37(2020).2411
Nielsen, P., Favez, N., Liddle, H., & Rigter, H. (2019). Linking parental mediation practices to adolescents’ problematic online screen use: A systematic literature review. Journal of Behavioral Addictions, 8(4), 649–663. https://doi.org/10.1556/2006.8.2019.61
Toledo-Vargas, M., et al. (2025). Parental technology use in a child’s presence and health and development in the early years: A systematic review and meta-analysis. JAMA Pediatr. 179;(7):730-737. https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2025.0682





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