Mediação parental e uso de TIC: como os adultos moldam a experiência digital dos filhos
- IKIGAI - Equilíbrio Digital
- há 12 horas
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As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) estão cada vez mais presentes no quotidiano das famílias — desde smartphones e tablets até computadores e redes sociais. Embora estas tecnologias ofereçam oportunidades educativas e recreativas, o modo como os adultos significativos (pais, responsáveis e encarregados de educação) gerem o seu próprio uso de TIC influencia profundamente como as crianças e os jovens se relacionam com estes dispositivos e espaços digitais.
Adultos como modelos: a influência do comportamento observado
As crianças observam e internalizam o comportamento dos adultos à sua volta. Investigadores têm descrito um fenómeno designado de technoference, conceito que se refere à interferência das tecnologias nas interações familiares, como quando um adulto está distraído pelo telemóvel durante momentos de conversa ou brincadeira com a criança (Toledo-Vargas et al., 2025).
Estudos qualitativos também revelam que os pais são frequentemente os principais responsáveis pelo acesso precoce às tecnologias pelos filhos, e que muitos cuidadores recorrem às TIC como ferramentas práticas (por exemplo, para manter a criança entretida), mesmo nos primeiros anos de vida. Este tipo de comportamento pode assinalar um padrão em que as TIC passam a funcionar não apenas como ferramentas externas de entretenimento ou aprendizagem, mas como mediadores afetivos e sociais no núcleo familiar — com implicações no desenvolvimento cognitivo e relacional (Cruz et al., 2020).
Mediação parental: estilos e estratégias de regulação
A mediação parental, ou seja, a forma como os adultos orientam, supervisionam e interagem com os filhos no uso das TIC, pode variar de acordo com os estilos parentais e as crenças que os pais têm sobre o papel das tecnologias no desenvolvimento das crianças (Brito, 2018).
De acordo com Chen e colegas (2025), diferentes estratégias de mediação parental produzem efeitos distintos nos padrões de uso do smartphone pelos adolescentes. Este estudo demonstrou que:
A mediação ativa, caracterizada por diálogo aberto, discussão sobre os conteúdos e orientação proactiva do uso dos dispositivos, está associada a menores níveis de uso problemático de smartphone entre adolescentes.
Por outro lado, uma abordagem focada apenas em supervisão ou controlo rígido pode dificultar a satisfação das necessidades psicológicas básicas do adolescente e está relacionada com maiores níveis de uso problemático.
Assim, a mediação ativa não só influencia diretamente o comportamento de uso, como também pode reduzir expectativas positivas exageradas em relação aos benefícios do uso intensivo de dispositivos, o que, por sua vez, diminui a probabilidade de dependência digital (Chen et al., 2025).
Mediação parental e o bem-estar digital da criança
Quando a mediação parental é apoiante, dialogante e adaptada à idade da criança ou jovem, ela pode promover competências críticas de literacia digital, nomeadamente, a capacidade de avaliar a fiabilidade de conteúdos, de usar ferramentas digitais de forma segura e de gerir o tempo de ecrã de forma conscientemente equilibrada (Nielsen et al., 2019).
Por outro lado, conforme a investigação supracitada, a ausência de mediação, ou abordagens centradas apenas na imposição de regras sem diálogo, podem deixar lacunas no desenvolvimento destas competências, potencialmente contribuindo para o aumento do uso excessivo ou compulsivo de tecnologia, menor capacidade de autorregulação no uso de dispositivos e maior risco de exposição a conteúdos impróprios ou a comportamentos de risco no ambiente digital.
O papel transformador da mediação consciente
A literatura científica atual aponta para um facto claro: os pais e responsáveis desempenham um papel central na formação da relação que as crianças e os jovens estabelecem com as tecnologias. Não se trata apenas de definir regras ou limitar o tempo de ecrã, mas de participar ativamente no uso digital dos filhos — através de diálogo, orientação, co utilização e criação de contextos seguros e reflexivos em torno das TIC.
Este envolvimento atento contribui não só para reduzir riscos associados ao uso problemático de ecrãs, como também para potenciar os benefícios educativos, sociais e cognitivos que as tecnologias modernas podem oferecer — desde que integradas de forma saudável e equilibrada na vida familiar.
Referências
Brito, R. (2018). Estilo parental e mediação do uso de tecnologias por crianças até 6 anos. Da Investigação às Práticas, 8(2), 21–46. https://doi.org/10.25757/invep.v8i2.155
Chen, Y., Gu, Q., Zheng, Q., Hu, B., Gu, C., Hu, Q., & Cao, Y. (2025). How parental mediation affects adolescents’ problematic smartphone use: The chain mediating role of basic psychological needs and positive outcome expectations. Frontiers in Psychology, 16. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2025.1590057
Cruz, C., Franco, C., Anunciação, F., & Cunha, M. J. (2020). A domesticação de ecrãs na infância: usos e mediação parental em meios citadino e rural. Comunicação e Sociedade, 37, 71–92. https://doi.org/10.17231/comsoc.37(2020).2411
Toledo-Vargas, M., et al. (2025). Parental technology use in a child’s presence and health and development in the early years: A systematic review and meta-analysis. JAMA Pediatr. 179;(7):730-737. https://doi.org/10.1001/jamapediatrics.2025.0682





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