Não é só tempo de ecrã: o que está a ser substituído?
- IKIGAI - Equilíbrio Digital
- há 2 dias
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“Quanto tempo passa o seu filho no telemóvel?”
É provavelmente uma das primeiras perguntas que fazemos quando pensamos na utilização de ecrãs por crianças e jovens. Mas será que o número de horas conta toda a história?
Hoje sabemos que a relação entre crianças, adolescentes e tecnologia é mais complexa. A American Academy of Pediatrics, nas suas recomendações mais recentes, reforça precisamente esta ideia: não devemos olhar apenas para o número de horas de ecrã, mas também para o conteúdo, o contexto, a finalidade da utilização e aquilo que o digital pode estar a substituir.
O mesmo tempo de ecrã pode significar coisas muito diferentes
Uma criança pode passar 45 minutos num tablet a criar uma história, pesquisar para um trabalho ou fazer uma videochamada com os avós.
Outra pode passar os mesmos 45 minutos num scroll contínuo de vídeos, sem um objetivo definido.
O tempo é igual. A experiência não.
Por isso, talvez seja mais interessante perguntar:
Para que é que está a utilizar o ecrã?
Com quem?
Que tipo de conteúdo está a consumir?
Como se sente depois?
E, sobretudo:
O que poderia estar a fazer nesse período?
O tempo de uma criança não é infinito.
Cada dia tem um número limitado de horas. Se aumentamos significativamente o tempo passado no digital, alguma coisa pode acabar por ficar para trás.
Pode ser o sono, a atividade física, a brincadeira, o contacto com outras crianças, o tempo em família, a leitura, a criatividade ou simplesmente o tempo livre.
É aquilo que se chama, de forma simples, efeito de substituição.
A Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças e adolescentes entre os 5 e os 17 anos realizem, em média, pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa, além de reduzir o tempo sedentário.
Assim, talvez a pergunta não deva ser apenas:
“Quanto tempo passou no ecrã?”
Mas também:
“O que deixou de fazer enquanto esteve no ecrã?”
E se o ecrã for sempre a resposta ao aborrecimento?
“Estou aborrecido!” Quantas vezes ouvimos isto?
E quantas vezes respondemos imediatamente com um dispositivo?
O problema não é uma criança utilizar um ecrã quando está aborrecida.
A questão é quando essa passa a ser a única resposta possível ao aborrecimento.
Quando não existe um estímulo imediato, surge uma oportunidade importante:
“O que posso fazer agora?”
É neste espaço que podem aparecer a imaginação, a criatividade, a brincadeira espontânea e a capacidade de iniciar uma atividade sem depender de alguém que diga o que fazer.
Uma criança também precisa de aprender que nem todos os momentos têm de ser preenchidos.
O corpo também precisa de espaço
Correr, saltar, equilibrar-se, trepar, dançar, brincar e explorar são muito mais do que formas de “gastar energia”.
São experiências através das quais a criança conhece o seu corpo, experimenta limites, resolve problemas, desenvolve competências motoras e aprende a relacionar-se.
É aqui que o equilíbrio digital se cruza com a psicomotricidade.
O desenvolvimento não acontece apenas através do que vemos num ecrã.
Acontece também através daquilo que sentimos, fazemos e experimentamos com o nosso corpo.
Por isso, promover um uso equilibrado da tecnologia não significa simplesmente retirar o telemóvel.
Significa também criar espaço para:
🏃 movimento
🎨 criatividade
🌳 contacto com a natureza
🤝 relações presenciais
🧩 brincadeira
😴 descanso
💬 conversa
💭 imaginação
O objetivo não é proibir. É ensinar a escolher.
A tecnologia faz parte da vida das crianças e dos jovens e pode trazer benefícios importantes. O objetivo não é criar uma infância sem ecrãs, mas sim ajudar a construir uma relação em que a criança consiga, progressivamente, perceber:
“Agora quero utilizar o ecrã.”
mas também:
“Agora quero brincar.”
“Agora quero estar com os meus amigos.”
“Agora preciso de me mexer.”
Agora quero simplesmente estar sem fazer nada.
Esta capacidade de escolha é uma forma de autonomia.
🌱 Desafio IKIGAI
Durante uma semana, experimentem trocar uma pergunta:
Em vez de perguntar apenas:
“Quanto tempo estiveste no telemóvel?”
perguntem:
“O que fizeste hoje longe dos ecrãs?”
E depois:
“Houve alguma coisa que querias fazer, mas acabaste por ficar no telemóvel?”
Não é um teste.
Não é para castigar.
É apenas uma oportunidade para tomar consciência.
Porque o equilíbrio digital não começa necessariamente quando desligamos o ecrã.
Começa quando percebemos porque é que o ligámos.
Bibliografia
American Academy of Pediatrics, Council on Communications and Media. (2026). Digital ecosystems, children, and adolescents: Policy statement. Pediatrics, 157(2), e2025075320. https://doi.org/10.1542/peds.2025-075320.
World Health Organization. (2020). WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. World Health Organization.
Gába, A., et al. (2022). Combinations of physical activity, sedentary behavior, and sleep duration and their associations with physical, psychological, and educational outcomes in children and adolescents: A systematic review. American Journal of Epidemiology, 191(3), 457–470.



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